A reta final da campanha eleitoral de 2026 em Rondônia ganhou novos contornos de tensão nesta semana. Aplicativos de mensagens instantâneas foram tomados por vazamentos de conversas que revelam um suposto esquema de aliciamento de eleitores e coleta irregular de dados cadastrais de títulos eleitorais.
O caso atinge diretamente a campanha do candidato a deputado estadual e atual vereador da capital, Zé Paroca. Nos registros, que circulam amplamente em grupos políticos, uma mulher identificada como Regiane — apontada como cabo eleitoral do parlamentar — articula com uma eleitora, chamada de dona Maria, a obtenção de dados de votantes sob a justificativa de prestação de serviços de fiscalização.
Os diálogos sob suspeita
A dinâmica do suposto esquema é revelada em uma sequência de áudios. Neles, a articuladora pede informações sigilosas da Justiça Eleitoral — como nome completo, número do título, seção e zona — associando a demanda a um suposto pagamento financeiro e ao alinhamento político em favor de Zé Paroca.
• Coleta de dados e aparente desinteresse no voto: Em um dos trechos mais expressivos (Áudio 4, 5 e 6), Regiane aborda a eleitora:
“Ainda na Maria, a senhora… Desculpa estar te perguntando, tá? Mas, eh, que eu tô precisando de, do nome de três pessoas que tenha o título, a sessão e as zonas. Só que nós, eles colocaram para mim trabalhar de fiscal para mim ganhar R$ 200 […] Mesmo a pessoa não votar, só para mim preencher os dados. Se a pessoa votar, paciência. Se não votar, amém.”
• Fidelidade declarada e preenchimento de terceiros: Em outro momento da conversa, a interlocutora confirma o voto em Zé Paroca, mas relata divergências familiares que não impedem a entrega dos dados de outros moradores da residência:
o “Sim, né? Eu vou votar nele. Eu o meu voto é dele, não tem outra coisa não. Só o meu véi que não vota nele não, ele vai votar em outro, mas eu preencho os dados dele.” (Áudio 8)
• Questionamentos sobre a finalidade: O vazamento também expõe a desconfiança sobre o real objetivo da coleta de dados cadastrais, levantando dúvidas entre os participantes dos grupos sobre a destinação dessas informações (Áudio 10).
O que diz a legislação eleitoral?
Práticas que envolvem a coleta massiva de títulos de eleitores em troca de vantagens financeiras, falsas vagas de emprego (como a de “fiscal” sem atribuição real) ou promessas de benefícios podem configurar captação ilícita de sufrágio (a famosa compra de votos) e abuso de poder econômico, previstos na legislação eleitoral brasileira (Lei nº 9.504/1997 e Código Eleitoral). As penas para os envolvidos podem incluir cassação de registro ou de diploma, além de multas e inelegibilidade.
Direito de Resposta e Próximos Passos
Até o fechamento desta matéria, a equipe jurídica e a assessoria de imprensa do candidato a deputado estadual Zé Paroca ainda não haviam se manifestado oficialmente sobre o teor dos áudios vazados. O espaço permanece aberto para manifestações e esclarecimentos do parlamentar e dos demais citados na reportagem.
Os materiais de áudio deverão ser encaminhados aos órgãos de fiscalização e aos canais de denúncia do Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia (TRE-RO) para a apuração da veracidade dos fatos e eventuais responsabilidades criminais e eleitorais.
CONFIRA OS ÁUDIOS TRANSCRITOS NA ÍNTEGRA:
• Áudio 1: “Questão que tem um outro colega dele vai ajudar ele, tá trabalho, né? Para empresa, mas por isso se ele entrar lá. Mas o menino é ótimo, um partido para votar.”
• Áudio 2 e 3: “Pois é, né, mulher? É complicado. Mas eu falei, o Jumar mesmo não vota. Mas o Ismar vai arriscar, mas não vota não. Eu vou votar nele, o Jumar não.”
• Áudio 4, 5 e 6: “Oi, dona Maria, boa tarde. É a Regiane. Ainda na Maria, a senhora… Desculpa estar te perguntando, tá? Mas, eh, que eu tô precisando de, do nome de três pessoas que tenha o título, a sessão e as zonas. Só que nós, eles colocaram para mim trabalhar de fiscal para mim ganhar R$ 200, que nem eu tava falando para o Jumar. Eh, mesmo a pessoa não votar, só para mim preencher os dados. Se a pessoa votar, paciência. Se não votar, amém. Aí eu queria conversar com a senhora.”
• Áudio 7: “Pro Zé Paroca.”
• Áudio 8: “Sim, né? Eu vou votar nele. Eu o meu voto é dele, não tem outra coisa não. Só o meu véi que não vota nele não, ele vai votar em outro, mas eu preencho os dados dele.”
• Áudio 9: “É o décimo eé. Tô nem aí, não.”
• Áudio 10: “Não é isso, é o que eu tava falando. Para quê que eles vão querer o título?”